A Sarau madeirense

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festamadeirense2Passe o aforismo de que “de sobrançaria e água-benta, cada qual toma a que quer”, contudo, velo menos para quem habite nesta belíssima ilhota atlântica, é uma asseveração de que nos quase 150 milhões de quilómetros quadrados deste astro (e somente os 30% que lhe espreitarão supra do mar), nunca haverá outro pedacinho com celebrações populares em tal grau vividas, alegres e bonitas uma vez que as que fazem a Sarau madeirense ser o que é.

Uma Sarau sentida, verdadeira, de “incluído”, de todos. Tem obviamente cintilações e brilhos artificiais, os dos colares e brincos de joias resplandecentes com que toda a ilhota se aperalta contudo, ao inverso de outras comemorações de espaçoso graduação, em que perpassará continuamente um pouco de “farsante” e de “obrigado”, tal nunca encobre, antes realça, a “sarau” que cada madeirense traz incluído de si, que nunca é para ensimesmamento ou costume particular, contudo para ramificação e comunidade.

Cingindo-nos ao concepção de “sarau”, porventura quem o traduza melhor seja Lhano Figueiredo no seu “Moderno Léxico de Língua Portuguesa”, dos idos anos 1913, em tal qual verbete, salvo lhe doar o significado de “evento sensacional”, igualmente a expressa uma vez que “dia de regozijo”.

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Acontece que na Madeira e no Porto Sacrossanto, a Sarau nunca é “único”, sequer “alguns”, contudo positivo “muitos” dias, mais de 40, de referto e digno regozijo, a partir de o lhaneza de dezembro até meados de janeiro do ano seguinte. É perceptível que, neste distância de período, a Sarau nunca tem continuamente a mesma grau e cadência, antes uma peregrinação num maquinismo hipotético que, velo inauguração, nos faz ascender lentamente em círculo até único patamar ainda ameno, em seguida começa a lucrar rapidez levando-nos numa novidade subida, actualmente em deslocação uniformemente apressurado e, posteriormente atingido único matéria bomba bem cocuruto, nos desce suavemente de rotação à dúvida do horizonte primeiro. Ou seja, a partir de o lhaneza do mês em que o Sol trará o inverno: a ornamentação alusiva, mais ou menos superabundante, dos espaços mais vivenciais das casas;

o erigir paciente dos presépios e das lapinhas, fantásticos mundos liliputianos onde apetece ir estanciar; a feitura da culinária mais complexa, as cozinhas a entrar em susto, com respeito ao Bolo e às Broas de Doçura de Cana, aos picles, às cebolinhas de escabeche e aos licores; o acatar, pelas auroras, do maior algarismo de Missas do Parto ou “novenas”, continuamente alegres e descontraídas, tantas quantos os meses da gravidez do Rapaz; a romagem à “Noite do Mercado” para as compras e confraternizações de última hora, no coração desmesurado do Mercado dos Lavradores; o ir à Missa do Galo de predilecção com único indiferente que obrigue a agasalho próprio, e faça querer pela canja da Ceia da Noite de Natal; a espalhafato das crianças quando rasgam a alvoroço e os papéis engraçados que escondem efemeramente os presentes; o período para que as famílias se visitem e pareçam antepassados durante uns dias felizes; a insensibilidade tranquila das “oitavas”, solitário interrompida por boas comidas e conversas; os desejos e roupas que se ensaiam, para ajeitar a despedida do ano antepassado e a entrada do ignoto que se lhe segue; as dezenas de milhares de olhos apontados ao estrado do firmamento, ansiando o magnificiente ballet de cores que rebentam em cascatas ou repuxos; os violões e as vozes que se afinam para trovar os Reis e, por fim, a alimpadura ou higiene, já com saudade, velo São Agre, de todas as delícias que ainda possam possuir ficado nos armários, e organizar cuidadosamente todo o erário de objetos natalícios para a próxima Sarau!!!

Ufa!!! Certamente bem terá ficado por expressar, em tal grau mais que a Sarau de cada casta madeirense, se apoiado que tendo elementos e momentos comuns, igualmente pode expor aspetos originais, geralmente herdados da tradição que lhes seja própria.